sábado, 8 de setembro de 2007
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Os indígenas na Parada Militar
Publicado também no blog Projeto Bolívia
O ato era oficioso, com toda a pompa de desfiles das Forças Armadas comuns aos dias de independência. No entanto, um colorido diferente tomou conta da festa. Com a instrução de Evo Morales, comandantes convidaram os povos originários da Bolívia a marchar lado a lado com os regimentos do exército, da marinha e da aeronáutica.
Às 9h45 da manhã, pontualmente no horário previsto, um avião baixou do céu e pisou o solo do aeroporto militar de Trompillo. Minutos seguintes, um carro aberto transportou o presidente em desfile. Ele exibia um sorriso aberto para os olhares e aplausos vibrantes de uma multidão espremida. Crianças dormiam ou choravam, inconscientes da importância da presença naquele lugar, naquele momento. Jovens e velhos buscavam acento. Mulheres pediam para os soldados saírem da frente e facilitarem a visão.
Logo depois de Evo acenar com retida simpatia, os indígenas começaram seu desfile. Pés descalços seguiam a cadência da marcha e caminhavam ao lado de coturnos bem postados e disciplinados. Podia-se ver o arrepio nos braços de alguns soldados, quando uma senhora ou simplesmente uma criança com roupas típicas portavam a bandeira nacional e dividiam o orgulho de serem simplesmente bolivianos. As diferenças entre Collas, Cambas, ou qualquer identidade étnica que exista ou venha a existir na Bolívia, caiam por terra quando indígenas, cocaleros, sindicalista, testemunhas de Jeová, militares, todos marchavam por um país unido.
Para muitos foi uma demonstração de invasão dos povos ocidentais em território oriental. Os dois lados formam duas Bolívias diferentes. Peleas faziam parte da previsão dos jornais, ávidos por confrontos e oportunidade para impressão de manchetes sensacionalistas. Certamente venderiam mais unidades quanto mais sangue sujasse as ruas. Mas um discurso conciliador de Evo e um comportamento civilizado de todos os setores garantiram o que se tornou muito mais do que o aniversário de 182 anos das Forças Armadas. Presenciamos a consolidação democrática do poder popular.
Às 9h45 da manhã, pontualmente no horário previsto, um avião baixou do céu e pisou o solo do aeroporto militar de Trompillo. Minutos seguintes, um carro aberto transportou o presidente em desfile. Ele exibia um sorriso aberto para os olhares e aplausos vibrantes de uma multidão espremida. Crianças dormiam ou choravam, inconscientes da importância da presença naquele lugar, naquele momento. Jovens e velhos buscavam acento. Mulheres pediam para os soldados saírem da frente e facilitarem a visão.
Logo depois de Evo acenar com retida simpatia, os indígenas começaram seu desfile. Pés descalços seguiam a cadência da marcha e caminhavam ao lado de coturnos bem postados e disciplinados. Podia-se ver o arrepio nos braços de alguns soldados, quando uma senhora ou simplesmente uma criança com roupas típicas portavam a bandeira nacional e dividiam o orgulho de serem simplesmente bolivianos. As diferenças entre Collas, Cambas, ou qualquer identidade étnica que exista ou venha a existir na Bolívia, caiam por terra quando indígenas, cocaleros, sindicalista, testemunhas de Jeová, militares, todos marchavam por um país unido.
Para muitos foi uma demonstração de invasão dos povos ocidentais em território oriental. Os dois lados formam duas Bolívias diferentes. Peleas faziam parte da previsão dos jornais, ávidos por confrontos e oportunidade para impressão de manchetes sensacionalistas. Certamente venderiam mais unidades quanto mais sangue sujasse as ruas. Mas um discurso conciliador de Evo e um comportamento civilizado de todos os setores garantiram o que se tornou muito mais do que o aniversário de 182 anos das Forças Armadas. Presenciamos a consolidação democrática do poder popular.
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
O clima explosivo do separatismo
Publicado também no blog Projeto Bolívia
Santa Cruz de la Sierra
Chegamos a Santa Cruz, a cidade economicamente mais desenvolvida da Bolívia e onde se encontra boa parte da burguesia do país. Latifundiários criadores de gado, banqueiros, famílias tradicionais e os donos dos principais meios de comunicação se concentram nesta província (estado), que leva a mesma denominação de sua capital.
Santa Cruz fica na parte leste da Bolívia e lidera um movimento de autonomia dos estados da chamada Media Luna, região ainda formada pelos estados de Tarija, Beni e Pando. Estes quatro estados, governados por políticos opositores ao governo Morales, não aceitam um indígena como líder nacional e buscam independência em relação ao poder central. Bandeiras e faixas espalhados por toda parte conclamam o separatismo.
OS OPOSITORES recorrem ao argumento de que o Morales não repassa os recursos de maneira democrática. Depois da pressão, um referendo nacional foi realizado para votar a autonomia e os bolivianos decidiram manter a nação unida. A decisão foi democrática, com o povo às urnas, mas os estados da Media Luna alegam que apenas eles próprios deveriam tomar essa decisão e, por isso, pedem novo referendo, desta vez localizado.
BASTA ANDAR pelas ruas da cidade para perceber a clara diferença racial entre a população de Cochabamba e a de Santa Cruz. Os rostos indígenas por aqui são menos constantes e os brancos formam a maioria.
A atmosfera em Santa Cruz é explosiva. Hoje é o dia da independência do país e uma marcha foi realizada pelas autoridades estaduais e municipais. No entanto, amanhã será um dia histórico para os indígenas. Eles vão participar da Parada Militar, marchando lado a lado com as Forças Armadas, depois de uma decisão tomada pelo poder central e muito representativa para as camadas populares.
O ATO DE MORALES simboliza a participação direta dos indígenas no poder, demostrando que eles são muito mais que uma base eleitorial: eles formam a força de sustentação do governo, assegurando as políticas de nacionalização das reservas naturais e a implantação de medidas socialistas.
A situação incomoda sobremaneira os setores conservadores e, por isso, todos esperam um clima tenso durante a Parada e muitos prevêem confrontos. De qualquer mameira, estaremos por lá e logo informaremos qual foi o resultado.
Santa Cruz de la Sierra
Chegamos a Santa Cruz, a cidade economicamente mais desenvolvida da Bolívia e onde se encontra boa parte da burguesia do país. Latifundiários criadores de gado, banqueiros, famílias tradicionais e os donos dos principais meios de comunicação se concentram nesta província (estado), que leva a mesma denominação de sua capital.
Santa Cruz fica na parte leste da Bolívia e lidera um movimento de autonomia dos estados da chamada Media Luna, região ainda formada pelos estados de Tarija, Beni e Pando. Estes quatro estados, governados por políticos opositores ao governo Morales, não aceitam um indígena como líder nacional e buscam independência em relação ao poder central. Bandeiras e faixas espalhados por toda parte conclamam o separatismo.
OS OPOSITORES recorrem ao argumento de que o Morales não repassa os recursos de maneira democrática. Depois da pressão, um referendo nacional foi realizado para votar a autonomia e os bolivianos decidiram manter a nação unida. A decisão foi democrática, com o povo às urnas, mas os estados da Media Luna alegam que apenas eles próprios deveriam tomar essa decisão e, por isso, pedem novo referendo, desta vez localizado.
BASTA ANDAR pelas ruas da cidade para perceber a clara diferença racial entre a população de Cochabamba e a de Santa Cruz. Os rostos indígenas por aqui são menos constantes e os brancos formam a maioria.
A atmosfera em Santa Cruz é explosiva. Hoje é o dia da independência do país e uma marcha foi realizada pelas autoridades estaduais e municipais. No entanto, amanhã será um dia histórico para os indígenas. Eles vão participar da Parada Militar, marchando lado a lado com as Forças Armadas, depois de uma decisão tomada pelo poder central e muito representativa para as camadas populares.
O ATO DE MORALES simboliza a participação direta dos indígenas no poder, demostrando que eles são muito mais que uma base eleitorial: eles formam a força de sustentação do governo, assegurando as políticas de nacionalização das reservas naturais e a implantação de medidas socialistas.
A situação incomoda sobremaneira os setores conservadores e, por isso, todos esperam um clima tenso durante a Parada e muitos prevêem confrontos. De qualquer mameira, estaremos por lá e logo informaremos qual foi o resultado.
Em busca da Bolívia que se reinventa
Direto de Cochabamba - Post publicado também no blog do Projeto Bolívia
A eleição de Evo Morales para a presidência da Bolívia, em dezembro de 2005, além de representar um momento de efervescência político-social muito forte – seguindo a tendência sul-americana –, clarifica uma disputa étnico-cultural singular: pela primeira vez, em 182 anos de fundação da república, um indígena chega ao poder no país.
Morales provem do movimento sindical camponês e emerge ao poder impulsionado pela organização dos setores populares formado por cocaleros e mineradores. Ele foi eleito depois de dois presidentes não conseguirem cumprir os mandatos por completo, renunciando depois de pressões dos movimentos contrários à privatização da água e do gás.
Um deles, por exemplo, Gonzalo Sáchez de Lozada, praticamente sepultou, com sua renúncia, o neoliberalismo que perdurou por 20 anos no país. Ele mal falava espanhol e saiu fugido para Miami depois de se negar a dar início ao processo de nacionalização da exploração das riquezas naturais. Seu sucesso, Carlos Mesa, também não cedeu às pressões e mal completou o mandato tampão.
UMA CLARA DISPUTA ideológica marca o contexto atual da Bolívia, com elementos segregacionistas de alto teor, onde a classe média urbana propaga seus ideais burgueses através da mídia empresarial e se coloca de um lado oposto aos campesinos e mineradores indígenas. Tudo vai muito além da discussão propriamente política eleitoral e culmina em diversos conflitos em praça pública, como o 11 de janeiro, quando manifestações se encontraram nas ruas de Cochabamba e dois campesinos foram assassinados, assim como um jovem de classe média.
O conflito se estabelece num momento de reformulação do socialismo, quando o presidente Evo Morales encabeça um processo de “Revolução Cultural Democrática”.
Partir para a Bolívia agora representa, portanto, uma tentativa de observar a conjuntura que pode ser determinante não só para o futuro do país, mas para a formulação de alternativas do exercício do poder na América Latina. Certamente, um movimento necessário para se discutir a emancipação tão sonhada do continente.
Vamos tentar contar um pouco a história deste país e sua luta para se reinventar através da elaboração de uma nova Constituição, mais democrática e popular.
Em tempo, a Bolívia encanta pela sua cultura indígenas - mais de 62% dos bolivianos tem alguma raiz indígena, compondo um mosaico de 38 etnias diferente, formadas principalmente pelos aimarás e os quechuas.
Essas diferentes nações viveram sempre em posições marginais à sociedade, excluídos do processo político. Só garantiram direito a voto direto a partir de 1952, quando uma Revolução Nacional promovida por operários tomou o poder e deu início a um processo de democratização dos direitos humanos. Mas, como em todos os países da América do Sul, governos ditatoriais chegaram para travar o processo e o sonho de liberdade dos povos oprimidos, agora reestabelecido.
A eleição de Evo Morales para a presidência da Bolívia, em dezembro de 2005, além de representar um momento de efervescência político-social muito forte – seguindo a tendência sul-americana –, clarifica uma disputa étnico-cultural singular: pela primeira vez, em 182 anos de fundação da república, um indígena chega ao poder no país.
Morales provem do movimento sindical camponês e emerge ao poder impulsionado pela organização dos setores populares formado por cocaleros e mineradores. Ele foi eleito depois de dois presidentes não conseguirem cumprir os mandatos por completo, renunciando depois de pressões dos movimentos contrários à privatização da água e do gás.
Um deles, por exemplo, Gonzalo Sáchez de Lozada, praticamente sepultou, com sua renúncia, o neoliberalismo que perdurou por 20 anos no país. Ele mal falava espanhol e saiu fugido para Miami depois de se negar a dar início ao processo de nacionalização da exploração das riquezas naturais. Seu sucesso, Carlos Mesa, também não cedeu às pressões e mal completou o mandato tampão.
UMA CLARA DISPUTA ideológica marca o contexto atual da Bolívia, com elementos segregacionistas de alto teor, onde a classe média urbana propaga seus ideais burgueses através da mídia empresarial e se coloca de um lado oposto aos campesinos e mineradores indígenas. Tudo vai muito além da discussão propriamente política eleitoral e culmina em diversos conflitos em praça pública, como o 11 de janeiro, quando manifestações se encontraram nas ruas de Cochabamba e dois campesinos foram assassinados, assim como um jovem de classe média.
O conflito se estabelece num momento de reformulação do socialismo, quando o presidente Evo Morales encabeça um processo de “Revolução Cultural Democrática”.
Partir para a Bolívia agora representa, portanto, uma tentativa de observar a conjuntura que pode ser determinante não só para o futuro do país, mas para a formulação de alternativas do exercício do poder na América Latina. Certamente, um movimento necessário para se discutir a emancipação tão sonhada do continente.
Vamos tentar contar um pouco a história deste país e sua luta para se reinventar através da elaboração de uma nova Constituição, mais democrática e popular.
Em tempo, a Bolívia encanta pela sua cultura indígenas - mais de 62% dos bolivianos tem alguma raiz indígena, compondo um mosaico de 38 etnias diferente, formadas principalmente pelos aimarás e os quechuas.
Essas diferentes nações viveram sempre em posições marginais à sociedade, excluídos do processo político. Só garantiram direito a voto direto a partir de 1952, quando uma Revolução Nacional promovida por operários tomou o poder e deu início a um processo de democratização dos direitos humanos. Mas, como em todos os países da América do Sul, governos ditatoriais chegaram para travar o processo e o sonho de liberdade dos povos oprimidos, agora reestabelecido.
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